quarta-feira, 28 de abril de 2010

Não jogue fora no lixo

Seja para dores de cabeça, musculares, febres ou pomadas para circulação. Eles estão sempre nas farmacinhas das residências, a mão para qualquer enfermidade de menor gravidade. Porém, o estoque dura muito mais do que a validade de cada medicamento e o resultado são produtos passados da validade. O descarte é certo, o que não é certo é o local onde depositar os remédios velhos. A maioria vai parar no lixo comum, aquele em que se coloca restos de papéis, plásticos e até comidas, mas será que é este o local apropriado?
A produtora cultural Rafaela Prazeres, 31 anos, costuma armazenar medicamentos “básicos” em casa. “Sempre tenho alguma coisa para dor e relaxante muscular, além do descongestionante nasal”, diz Prazeres que convive com uma rinite alérgica. “É só o tempo mudar que a quantidade aumenta ainda mais”, acrescenta. Como a enfermidade é curada rapidamente os medicamentos ficam guardados. “Coloco numa caixa própria e faço uma limpeza periodicamente. O que está vencido jogo fora”.

Como muitos soteropolitanos, a produtora cultural coloca o que não serve para curar doenças no lixo comum da residência  que vai com o caminhão de lixo para os aterros sanitários. De acordo com o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (Idum), calcula-se que 20% dos medicamentos adquiridos são descartados de alguma forma no meio doméstico.
Esse problema sanitário parece que está longe de ser resolvido. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o descarte dos medicamentos adequadamente deveria ser de responsabilidade dos Ministérios do Meio Ambiente e das Cidades. A assessoria da Anvisa destaca ainda que no Brasil não existe nenhum tipo de legislação que regulamente o processo. Segundo o órgão, existe apenas algumas iniciativas isoladas.
Muitos remédios, depois de inutilizados são jogados em pias ou vasos sanitários. Mas, engana-se quem pensa que fazendo isso está contaminando menos o meio ambiente. Despejando os produtos ralo abaixo os medicamentos vão parar nos sistemas de tratamento de esgoto doméstico, contaminando a água e consequentemente o solo.

A partir daí as substâncias que compõem os remédios podem interagir e matar as bactérias usadas para tratar o esgoto. Com isso a água que chega às residências e é ingerida diariamente, pode conter fragmentos dos remédios, e apresentar qualidade duvidosa.
“Pesquisas já constataram que muitos microorganismos já estão resistentes a diversos antibióticos e isso acontece muitas vezes pelo contato destes medicamentos com o meio ambiente”, explica o coordenador do Idum, Antônio Barbosa. Conforme ele, o ideal seria que depois que o medicamento tivesse com o prazo de validade vencido fosse devolvido para as farmácias. “Pois do ponto de vista legal o responsável deveria ser os órgãos sanitários”, observa.

Dúvidas entre a população

 “O ideal seria a incineração, mas também deveria ser feita de uma maneira adequada e com orientação da vigilância sanitária”, diz o coordenador. Porém, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e o Conselho Federal de Farmácias (CFF) não chegam a nenhum consenso sobre o caso. E muitas farmácias não aceitam esse “lixo”.
Segundo o urbanista especialista em gestão ambiental Tomaz Miranda, a situação é mais grave do que se pensa e com algumas medidas simples a situação poderia ser amenizada. “O descarte adequado é uma questão ambiental, pois se jogado como resíduos comuns contaminam o solo e rios. O correto seria voltar para o fabricante para ele dar uma destinação correta”, diz.
A dúvida em relação ao tema paira entre os soteropolitanos, como destaca o administrador de empresas Thiago Freitas, 25 anos. “Nunca sabemos o que fazer com o remédio que não serve mais. Pensava que jogando no vaso sanitário não prejudicasse o meio ambiente”. Conforme ele, o ideal seria a criação de postos de coleta. “Seria o mais correto”, sinaliza.
Algumas toneladas de medicamentos são produzidas por ano e aplicadas na medicina humana e veterinária, mas a produção exata não é publicada. Porém, o monitoramento de medicamentos no meio ambiente – conhecidos na literatura como ‘fármacos’ – vem ganhando grande interesse devido ao fato de muitas dessas substâncias serem frequentemente encontradas, em concentrações altas, em afluentes de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e águas naturais.